Projeto Human Ecosystem

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Em evento realizado de 22 a 28 de setembro em São Paulo, no SESC Vila Mariana, Salvatore Iaconesi e Oriana Persico, criadores do projeto Human Ecosystem, concederam entrevista especial ao Wenovate. Confira a seguir.

Wenovate – No que exatamente consiste o projeto Ecossistemas Humanos?

Salvatore Iaconesi e Oriana Persico -

Ecossistemas Humanos é um projeto city-based no qual podemos capturar toda a informação pública que é gerada por cidadãos e organizações através de redes sociais e processá-la para entender o que as pessoas estão falando, quais são suas emoções, opiniões, relações; e de que maneira se formam comunidades e redes, e quais são seus papéis nessas comunidades e redes.

Em seguida, pode-se soltar toda essa enorme quantidade de informação como uma fonte em tempo real de Dados Abertos, que os cidadãos – designers, artistas, gestores públicos, empreendedores sociais, pesquisadores e professores podem usar para várias finalidades. Desde as relacionadas à governança participativa da cidade até a criação de belas e interessantes obras de arte, concepção e desenvolvimento de serviços inovadores, pesquisa, planejamento urbano, educação cívica, e muito mais. Deste modo são aplicações interdisciplinares e sugerem conexões fortes, dinâmicas entre os cidadãos e as áreas de pesquisa, artes, tecnologia, governo, criatividade e empreendedorismo. Fazemos isso de duas formas: criando um museu e um laboratório.

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Em primeiro lugar, criando o que chamamos de “Museu da Cidade em Tempo Real”, como faremos no SESC Vila Mariana, em São Paulo. Este é um museu real, que em vez de mostrar pinturas e esculturas, exibe o emocional e relacional do Ecossistema da Cidade. Podemos imaginar isso como um planetário. Em lugar de mostrar estrelas, mostra pessoas e organizações. Em lugar de mostrar constelações (relações entre estrelas) mostra relações entre pessoas. As pessoas podem encontrar a si mesmas no Ecossistema e podem visualizar a que comunidades pertencem e quais são suas interações potenciais.

Ele também pode ser usado para “fazer perguntas para a cidade”. Questões importantes, tais como: “quem está preocupado com o meio ambiente na cidade”; “Quem está ansiosa sobre o seu trabalho?”; “Quem você gostaria para sua comunidade?”; e muito mais.

As respostas a todas essas perguntas vêm sob a forma de redes humanas: redes de seres humanos e suas relações, os papéis (alguns podem ser influenciadores, alguns hubs, alguns especialistas, ou pontes entre diferentes comunidades), emoções, opiniões, e as formas em que todos estes evoluem e se transformam ao longo do tempo, a geografia, a cultura e a língua falada.

Através deste mecanismo, criamos a segunda maneira pela qual usamos os ecossistemas humanos: o laboratório. Neste laboratório, podemos ensinar as pessoas a usarem esses dados para criar uma mudança positiva na cidade. Estudantes de todas as idades, artistas, designers, administradores públicos, empreendedores, pesquisadores, todos podem aprender como usar este laboratório e colaborar com inúmeras disciplinas para criar serviços inovadores, gestão participativa ações de tomada de decisões, ações cívicas, obras de arte, novas formas de planejamento urbano e estratégico, processos de definição de políticas de colaboração, brinquedos e muito mais. Todas estas podem ser compartilhadas em Tempo Real neste “Museu da Cidade”, pronto para ser usado e reutilizado para outros assuntos, e também em todas as outras cidades em que os ecossistemas humanos foram iniciados, criando amplo acesso ao conhecimento, e realimentando inclusive o ecossistema.

Wenovate - O que motivou seu surgimento e pesquisa?

Salvatore Iaconesi e Oriana Persico -

O projeto Ecossistemas Humanos é a última fase de uma série de projetos que iniciamos pelas mais variadas razões: questões sociais e políticas, relacionadas com enormes oportunidades que surgem quando você é capaz de obter colaboração entre artes, ciências, tecnologias, governos e empreendedorismo.

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Do ponto de vista sócio-econômico, deve-se destacar como os seres humanos têm transformado radicalmente as formas pelas quais se relacionam, trabalham, colaboram, expressam suas emoções e constroem sua identidade ao se comunicarem.

Quase dois bilhões de pessoas no planeta já utilizam as redes sociais como uma parte integrante do seu espaço público, para expressar suas opiniões, desejos, expectativas, preocupações, relacionamentos e muito mais. Mas vivemos atualmente nesta situação peculiar em que as pessoas que geram toda essa atividade e as informações não podem acessá-las.

O Facebook tem essa informação, a NSA pode tê-la, uma grande corporação como a Coca-Cola pode comprá-la. Apenas os cidadãos não têm acesso a ela. E esta informação tem múltiplos usos positivos, radicalmente inovadores, que ainda nem se começou a explorar. Todos eles são baseados na possibilidade de os cidadãos poderem acessar as informações produzidas pela sociedade nesse espaço público e usá-las de maneiras positivas e construtivas.

Por isso estamos promovendo a ideia de um Commons onipresente, o Commons na era das tecnologias onipresentes. O Ecossistema Humano é uma das maneiras de promover a adoção do Commons onipresente por governos, empresas, ciências e cidadãos, provocando uma mudança radical e positiva em nossas comunidades, através de atos de participação e colaboração consciente, ativa e informada.

Wenovate - Como o projeto pode ajudar a sociedade civil?

Salvatore Iaconesi e Oriana Persico -

De várias formas. Primeiramente, permitindo aos cidadãos se beneficiarem da enorme quantidade de dados e informações que eles geram em redes sociais, os novos espaços públicos. Atualmente eles não têm acesso a isso, não podem usar os dados para organizar-se, para obter uma melhor compreensão de sua sociedade e promover de modo eficaz a gestão participativa de suas cidades.

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Em segundo lugar, restaurando a usabilidade e acessibilidade do espaço público digital. Empresas como Facebook, Twitter e Google fazem muitos esforços para a produção de ambientes digitais que imitam de perto espaços públicos, dando aos cidadãos de todo o planeta uma esperança: a percepção clara destes serviços como espaços públicos. Mas os espaços públicos e os direitos das pessoas em si mesmas são preservados e protegidos, de modo que não são válidos em espaços como o Facebook, por exemplo. Este tipo de expectativa induzida é protegido por aparato legal, e é só por causa de uma falta de capacidade de resposta dos sistemas jurídicos que os regulamentos existentes não são aplicados nestes espaços digitais.

Por exemplo, no espaço público, para alterar o direito dos cidadãos à privacidade deve-se passar por parlamentos eleitos, Senados, Congressos, presidentes, de acordo com os procedimentos que nós, como cidadãos, optamos em nossas sociedades democráticas. No Facebook, por exemplo, um espaço que é reconhecido como um espaço público de 1,3 bilhões de pessoas em todo o planeta (o segundo país do mundo, depois da China), qualquer alteração do direito à privacidade pode ser executada a qualquer momento, de forma unilateral, alterando algumas linhas nos Termos de documentos de Serviço.

E, terceiro, tornando os dados pertinentes a estes espaços públicos digitais acessíveis aos cidadãos, a fim de permitir modelos inteiramente novos para a participação cívica e colaboração, em que administrações, empresas e institutos de pesquisa assumem funções inteiramente novas, tornando-se facilitadores e promotores da difusão maciça de práticas de colaboração em rede, distribuição que emerge entre cidadãos, empresas, artistas, arquitetos, urbanistas, engenheiros, antropólogos e, assim, por toda a sociedade, de maneiras acessíveis e inclusivas. É a sociedade em rede que deveríamos ter, reconhecida como a maior oportunidade provocada pelas novas tecnologias. Para este tipo de sociedade o conceito do Commons onipresente torna-se uma questão fundamental.

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