Pás para turbinas eólicas


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Nesta edição especial, entrevistamos Bento Koike, fundador da Tecsis, empresa brasileira líder  na fabricação de pás para turbinas eólicas. Empreendedor nato, ele nos conta em detalhes como foi sua trajetória à frente da empresa.

Wenovate - A ideia de fabricar pás para turbinas eólicas sempre existiu, ou derivou de alguma outra iniciativa?  Qual foi o primeiro produto da empresa e qual é o principal produto hoje?

Bento Koike - Foi um processo de desenvolvimento em minha trajetória profissional. Eu me formei no ITA. Lá tive contato com a tecnologia aeroespacial e com tecnologia de materiais compostos, que, anos depois, utilizei amplamente no processo de desenvolvimento e produção de pás para turbinas eólicas.

Também tive oportunidade de participar de  um projeto internacional, na Alemanha, que me proporcionou conhecimento sobre o setor de energia eólica. O projeto consistia justamente no  desenvolvimento de uma turbina eólica, pequena, se comparada aos projetos de hoje, mas que para a época era de grande porte. 

Depois fundei, juntamente com alguns colegas do ITA, uma empresa que produzia os principais componentes para o Programa Espacial Brasileiro utilizando materiais compostos.  O nome dessa empresa era Composite.

Quando deixei essa empresa, fiz uma viagem à Europa em busca de oportunidades de negócios e visitei um fabricante alemão de turbinas eólicas. Na conversa, surgiu a possibilidade de fabricar as pás no Brasil e exportá-las para a Alemanha. Juntei essa oportunidade com a experiência acumulada anteriormente e, assim, fundei a Tecsis em conjunto com dois outros engenheiros.

A pá foi o primeiro produto, mas desde o início trabalhamos com pás customizadas, isto é, produtos que atendem às necessidades de cada cliente e às especificidades de cada novo projeto de turbina. Assim, de certa forma, fazemos diversos modelos de pás, sempre customizadas. Além disso, apesar de ser uma indústria, a Tecsis tem forte integração com o setor de serviços, pois oferece serviços de pós-venda (assistência técnica, manutenção etc.) e também de engenharia, participando do desenvolvimento e certificação de cada nova pá concebida pelos clientes.

Wenovate - Hoje vocês são líderes nacionais na fabricação de pás, fornecendo para os maiores produtores de turbinas do mundo. Você imaginava alcançar essa liderança lá em 1995? O que foi mais importante nesse processo, um bom planejamento ou a capacidade de se adaptar às oportunidades?

Bento Koike - Somos líderes no mercado mundial na produção de pás customizadas, mas confesso que não imaginava que atingiríamos o porte a que chegamos, embora sempre tenhamos buscado fazer um negócio relevante para a sociedade. Quando fundei a Tecsis, minha motivação era criar um negócio de forte base tecnológica, inovador e que, de alguma forma, fizesse diferença na sociedade, contribuindo para a qualidade de vida das pessoas. Quando conseguimos nossos primeiros contratos, nosso foco era o de fazermos produtos que se destacassem pela qualidade e encantassem nossos clientes. Sendo assim, eu já tinha o sonho de liderança, mas não necessariamente em market share, o que depois acabou se tornando realidade como consequência do diferencial que criamos.

É importante ter planejamento, mas, ao mesmo tempo, desenvolver capacidade de adaptação às oportunidades. A visão estratégica é necessária e deve ser seguida. É o que orienta nosso caminho. Mas, como todo mercado tecnológico, que se cria a partir de uma inovação disrruptiva, a energia eólica cresceu de maneira rápida com muita volatilidade, em diferentes geografias e tendo mudanças rápidas de maturação tecnológica. A agilidade para nos adaptarmos às radicais mudanças, para atender às demandas do mercado, foi realmente o nosso grande desafio. Se não identificar as mudanças e se adequar ao novo ambiente, uma empresa se torna engessada e não sobreviverá à dinâmica do mercado.

Wenovate - Nestes quase 25 anos de empresa, quais foram os maiores desafios enfrentados? Em que momentos foi preciso se re-inventar e por quê?

Bento Koike - Creio que o maior desafio foi sempre manter a cultura de inovação, tanto na Composite como na Tecsis. Sem essa cultura, a Tecsis não chegaria ao patamar de liderança tecnológica que possui hoje e ao seu  porte atual (fatura US$ 700 milhões por ano).

Outro desafio é manter a equipe motivada e alinhada em torno de objetivos comuns. Isso cria o ambiente favorável à inovação e ao atendimento das exigências impostas por um mercado de concorrência acirrada e alto nível de sofisticação.

Em uma companhia de forte base tecnológica e que tem na inovação um de seus mais preciosos ativos, a reinvenção é permanente, seja no produto, seja na gestão e na estratégia do negócio. Cito alguns casos:

- Quando deixei a Composite, tive que reinventar minha carreira e buscar um novo empreendimento que fosse compatível com meu sonho.

- Anos depois de fundar a Tecsis, nosso maior cliente fez uma oferta para comprar a companhia. Não aceitamos e isso prejudicou a relação entre nós. Tivemos que abrir mão dos contratos com ele e nosso faturamento caiu fortemente. Saímos ao mercado e conquistamos outros clientes. Hoje, somos o maior fornecedor de pás para a GE Energy e de outros pesos pesados do mercado como Alstom, Gamesa e Siemens.

- Após os primeiros anos de operação, sentimos um novo desafio se delineando. O mercado mudava os produtos cada vez mais rapidamente. Percebemos que o tempo para lançar novos modelos era crítico para a competitividade de nossos clientes. Ajustamos a empresa para ajudar nossos clientes a lançarem novos produtos de forma mais rápida. Para isso, fortalecemos ainda mais a nossa engenharia, fizemos a aquisição de um experiente escritório de engenharia na Espanha, montamos diversas bases de ensaio estrutural das pás e inovamos ao colocar robôs para usinar os modelos das novas pás. Passamos a ser os mais rápidos no mercado em transformar protótipos de desenvolvimento em produtos homologados e, em seguida, em estabelecer uma produção seriada de alto volume.

* Bento Koike graduou-se em engenharia aeronáutica pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) onde fez também pós-graduação em estruturas aeroespaciais. Trabalhou como pesquisador no Centro Técnológico Aeroespacial (CTA) e no Instituto de Pesquisa Aeroespacial da Alemanha, onde teve a oportunidade de aprofundar sua pesquisa em materiais avançados e estruturas aeroespaciais. Aprimorou sua especialização realizando pesquisas no Canadian Communications Research Center. 

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