Cidades inteligentes: um bate papo com quem entende do assunto

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Em entrevista ao boletim Inovação Aberta deste mês, Sérgio Borger, líder em sistemas humanos e estratégia técnica do laboratório de pesquisa da IBM no Brasil, fala sobre mobilidade urbana, acessibilidade, engajamento do cidadão via tecnologia social e o poder das comunidades na construção de uma melhor qualidade de vida para todos.

Wenovate - Como a tecnologia tem ajudado ou pode ajudar na questão da mobilidade urbana? Até que ponto encontra-se acessível ao cidadão?

Sérgio Borger - A mobilidade urbana afeta todo mundo e é um dos 3 fatores de destaque para a qualidade de vida em uma cidade, os outros dois são saúde e educação. Se perguntarmos às pessoas sobre o que mais as incomodam, apontarão esse fator como principal, por estar diretamente ligado à sua qualidade de vida. A grande dificuldade que se tem hoje é de definir esse conceito de mobilidade urbana, pois para cada pessoa que você perguntar o que é, encontrará uma resposta diferente.  Para alguns é poder pegar a condução e chegar ao trabalho sem problemas, para outros é entrar no carro e levar os filhos na escola, sem pegar trânsito. Para outros é não encontrar  buraqueira em seu trajeto e para o motorista do CEAGESP é transportar alimentos e entregá-los a tempo, antes que estraguem. Deste modo, a mobilidade urbana é algo essencial e multifacetado, especialmente em cidades enormes como São Paulo. Está ligada às condições do ambiente e à urgência de cada função. O cadeirante, o deficiente visual, o esportista, a mãe que leva a criança no parque, todos têm algum tipo de necessidade, o que torna o debate em torno deste tema bastante amplo. Temos também uma dificuldade muito grande de identificar métricas claras para dizer se melhoramos ou não, porque existem muitas demandas para monitorar. A dificuldade não está em executar a métrica, mas em saber qual a necessidade do cidadão em cada momento, já que essas demandas estão sempre se modificando. Aqui a participação do cidadão via tecnologia entra fortemente, pois é ela  que vai nos dar o mapeamento das principais áreas de mobilidade urbana, e sabendo o que é mais importante, podemos priorizar as ações corretivas. Os recursos, geralmente limitados, serão sempre destinados a locais com usuários que têm mais atividades e que impactam a vida da sociedade como um todo. O caso do motorista que mencionamos vai afetar a alimentação da cidade, então precisamos priorizar. O engajamento do cidadão usando tecnologia móvel (a exemplo do www.rotaacessivel.org) é muito importante neste sentido. Um grande sistema de bigdata pode gerar um plano otimizado para criar a infraestrutura necessária ao  aumento da qualidade de vida urbana.

Wenovate - Embora exista uma Lei que regule a questão da Acessibilidade, vemos inúmeras irregularidades no espaço urbano brasileiro, seja em cidades pequenas, seja em grandes cidades, como São Paulo. Como pressionar as autoridades com relação à fiscalização?

Sérgio Borger - Há muita legislação disponível sobre acessibilidade, relacionada à calçadas, manutenção e simples fiscalização. O que ocorre é que não temos um número suficiente de fiscais e, mesmo se tivéssemos, não há recursos para consertar tudo imediatamente e ao mesmo tempo. Tomemos como exemplo a cidade universitária: são 140 km de vias. No canto superior esquerdo da USP onde hoje ninguém vai, será que devo fazer uma via rebaixada lá? Será que eu dou prioridade à frente do centro residencial da USP? Que lugares necessitam repavimentação? Quais são as prioridades? É aí que devemos abrir para o cidadão identificar as necessidades locais.  Com essas respostas, podemos criar planos melhores e a gestão pública pode adaptar seus processos e sistemas. Todo o processo que temos hoje ainda é muito reativo. Precisamos ir além da reclamação pontual, com fiscais autuando ou não. Neste sentido, é fundamental o exercício da cidadania para identificar as áreas que gostaríamos que tivessem maior visibilidade por terem maior uso. E embora as tecnologias sociais ainda sejam um fenômeno relativamente novo, especialmente as móveis, vemos um número crescente de pessoas utilizando-as para reportar os mais variados problemas. Acredito que em alguns anos as cidades mais modernas serão aquelas que souberem priorizar recursos a partir desse contato com o cidadão, que se tornará o próprio fiscal do seu espaço.

Wenovate - Sendo um pesquisador do tema cidades inovadoras, como você vê a questão do engajamento do cidadão no que tange à luta por melhorias em seu ambiente? Aumentou? É efetivo?

Sérgio Borger - Ainda sinto falta de ver as pessoas tirando mais fotos, reportando mais sobre seu espaço, não só sobre problemas, mas também sobre coisas positivas que acontecem na cidade. Somos todos uma mega comunidade e, para que ela funcione, temos que fazer a nossa parte, reclamando, interferindo e exigindo nossos direitos. Existe um pool de tarefas coletivas que precisamos entender como responsabilidade nossa. Se você participa, sua vontade será ouvida, mesmo que ainda não existam os respectivos projetos na sua cidade. Vejo que mesmo em cidades menores ainda existe uma certa resistência aos sistemas ou à abertura dos mesmos. Um belo exemplo de participação comunitária aconteceu recentemente em Porto Alegre. A assembleia legislativa realizou uma enquete pública com uso de mobile. Foi muito bacana ver todos participando com seus celulares. As pessoas do comitê que teriam que tomar decisões voltaram-se para a audiência e deram direito de voto, e o sistema coletou as informações na mesma hora. Sabemos que ainda existe um processo de inclusão do cidadão e do exercício de sua cidadania que não ocorre da noite para o dia. Mas o número de sistemas e sua aceitação vem crescendo e muito em breve grandes cidades assumirão seu papel de se conectarem diretamente com o cidadão. Finalmente saberemos onde  investir e nossos planos diretores vão refletir essas necessidades.

Wenovate - Algumas vertentes político-sociais apostam no empoderamento das comunidades como forma de desenvolver seu entorno. Você poderia citar algum caso de sucesso desse tipo?

Sérgio Borger - Sem dúvida alguma, a comunidade organizada usando o ferramental disponível tem um poder muito grande de transformar seu espaço. Um caso que posso citar é o da AACD na Vila Mariana, que por ano atende centenas de milhares de pessoas portando algum tipo de deficiência. Essas pessoas diariamente precisam chegar à AACD. É necessário prever, portanto, onde estão os pontos de ônibus, vagas para carros e tudo que dá acesso à instituição. Isso porque se trata de uma comunidade com grande dificuldade de se locomover. Se você subir até a Santa Cruz, na região da Domingos de Moraes,  encontrará pelo caminho a Cruz Verde, a APAE, o GRAAC, a Escola Paulista de Medicina, entre outras entidades com grande necessidade de acesso. Com base nisso, voluntários dessas entidades se juntaram, conversaram com a gente e criamos durante um fim de semana, com uma única campanha, um mapeamento via mobile de 10 fatores de importância para a comunidade. Eles decidiram o que mapeariam, geraram relatórios e suas lideranças estão discutindo com os órgãos públicos. Fizeram o trabalho de casa, exercendo a cidadania. Entrando no www.rotaacessivel.org por seu smartphone, você consegue acessar toda essa informação.

Sérgio Borger tem mais de 20 anos de experiência em inovação incluindo dezenas de projetos com clientes em vários segmentos de indústria, tais como distribuição, varejo, bens de consumo, saúde e educação. Sua abordagem criativa na área de gerenciamento de redes recebeu o 1º premio de inovação da Alcatel e da UNESCO. Seu trabalho de pesquisa atual é focado em cidades inteligentes e conscientes (“sentient cities”). 

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4 ideias sobre “Cidades inteligentes: um bate papo com quem entende do assunto

  1. Gostei da entrevista e gostaria de saber como entrar em contato com o sr Sérgio Borger, pois estamos desenvolvendo um projeto relacionado com Smart Cities, um software para arborização que pretendemos testar na cidade de Londrina, no estado do Paraná. Aguardo retorno assim que puder . Obrigada.

  2. Gostaria de maiores informações para entrar em contato com o sr.Sérgio Borger. Estamos desenvolvendo um projeto teste para a cidade de Londrina no Paraná e ele poderia esclarecer algumas dúvidas.

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