Inovação e incerteza: quem decide no quê investir?

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Por Rafael Levy

No dia 28/01/14 foi publicado um artigo no jornal Brasil Econômico (http://www.abegas.org.br/Site/?p=32670) sobre o “endurecimento das regras” da ANP para os investimentos em P&D pelas empresas concessionárias de produção de petróleo. 

Como destaque da matéria, ressaltamos os comentários do superintendente da ANP, Elias Ramos de Souza, sobre o aumento na restrição do objeto dos projetos de P&D financiados com os recursos do petróleo:

 “Os recursos devem ser investidos para gerar benefícios para a sociedade. Se não houver coordenação, o interesse privado prevalece”, afirma. Entre as propostas que serão levadas a consulta pública, está a criação de um comitê técnico para definir linhas de pesquisa baseadas nas demandas tecnológicas do setor e a instituição de aprovação prévia, pela agência, de todos os projetos beneficiados.

Vemos aí uma tendência que vem se repetindo em diversos mecanismos de fomento e incentivo à inovação existentes no Brasil: o governo pretende decidir os temas nos quais as empresas privadas devem aplicar seus recursos.

Todos os últimos programas de incentivo à inovação do governo (subvenção econômica, editais do Inova Empresa, FUNTEC do BNDES, editais dos fundos setoriais etc.) vêm trazendo temas bem delimitados e específicos dentro dos quais os projetos financiados pelas empresas podem se classificar.

Dentre os programas de incentivo que não limitam áreas temáticas, temos ainda apenas os financiamentos, embora cada vez mais a concentração de recursos dos mesmos também sejam os editais do Inova Empresa com limitação de temas. Além deles, os programas regulatórios e de incentivos fiscais que exigem investimentos mínimos em P&D como percentual da receita (Inovar Auto, Lei de Informática, P&D ANP e P&D ANEEL) têm sido os únicos programas que permitem liberdade na aplicação dos recursos em quaisquer projetos decididos pelas empresas.

Essa nova proposta de regulamentação do P&D ANP vem contaminar também essas últimas linhas restantes com a limitação de temas de projetos pelo governo.

Entendemos a motivação do governo de concentração dos recursos em áreas específicas onde acreditam que o Brasil precisa fortalecer sua competitividade, porém, a definição de temas muito específicos limita a própria capacidade de criatividade e inovação das empresas na definição dos projetos a serem realizados.

Uma das principais características da inovação é a incerteza. Portanto não é possível antecipar com precisão quais os produtos/tecnologias/serviços que serão bem sucedidos. Ou seja, o futuro não é apenas uma extrapolação do passado, mas leva em conta aspectos impossíveis de  serem previstos.

Não defendemos aqui que não seja possível planejar o desenvolvimento tecnológico, mas o aspecto de incerteza deve ser sempre levado em conta nesse planejamento e considerado como parte fundamental das chances de sucesso na inovação.

O Prof. Henry Chesbrough, da Universidade de Berkeley, comparou essa diferença de mentalidade com os jogos de xadrez e poker. Enquanto no xadrez o jogador deve ser capaz de prever os movimentos futuros por meio das regras conhecidas e estando de posse de toda a informação disponível de forma igualitária a seu oponente, no jogo de poker (que mais se assemelha ao “jogo” da inovação no mundo real) os jogadores não têm igualdade de informações e devem trabalhar com a incerteza “apostando” nos possíveis resultados com base nas informações disponíveis naquele momento, aumentando ou diminuindo essa sua aposta a cada informação adicional que lhe é disponibilizada.

Ao se atribuir o papel de decisão dos temas específicos de projetos inovadores, o governo se coloca na posição do inovador e pretende prever o futuro decidindo em nome do mercado quais serão as inovações bem sucedidas do futuro. Ao pretender tirar das empresas o poder de gerir a incerteza por meio da diversificação de seus portfólios de projetos, o governo ao invés de promover a inovação está condenando o País a um grande risco de fracasso na inovação ao tentar eliminar toda a gestão da incerteza inerente ao processo.

Esperamos que essa tendência não prospere e que as agências reguladoras e de fomento à inovação adotem políticas que permitam que as empresas adotem essa diversificação necessária à gestão das incertezas e passe a considerar esses aspectos fundamentais de uma gestão da inovação eficaz, de forma a finalmente alavancar o impacto do nosso país no cenário da inovação mundial.

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