Near Future Design: a percepção de uma “nova possibilidade” e um novo papel para o Design

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O que é o futuro? Por Salvatore Iaconesi e Oriana Persico.

O futuro não existe. É algo do qual todos nós fazemos parte, estabelecendo uma conversa global, tomando decisões e abraçando direções. Cada vez que fazemos isso, nós ampliamos a nossa percepção “do que é possível” e vamos mais além.

Na ISIA Design Florence tivemos uma grande experiência em Near Future Design, e apresentamos isso no Frontiers of Interactions 2013Aqui está o que fizemos e como foi. Neste longo artigo vamos introduzir nossa própria definição de Near Future Design, o processo e a metodologia que usamos, e os primeiros resultados desta experiência, mostrando os casos de estudo produzidos por nossos estudantes na ISIA Design em Florença.

Nota: estamos disponibilizando uma publicação caso você queira saber mais sobre o projeto e a nossa ideia do que é (e pode ser) Near Future Design. Para mais informações, cheque as atualizações mais abaixo.

O futuro não existe.

O Futuro é uma performance que nos envolve a todos, por meio das dimensões de  desejo e do  imaginário. Em uma era contemporânea interconectada, a inovação é estabelecida por meio de conversas, diálogos, observando-se suas tensões e orientações, e usando-se os resultados destas observações para projetar (to design) uma visão de futuro possível e implementável.

Neste cenário, a visão do futuro – junto com todas as suas implicações éticas, ambientais, sociais, políticas e   ecossistêmicas – é possivelmente o produto mais precioso que pode ser oferecido por qualquer organização.

Isso requer algo novo do Design, que se torna o ativador do imaginável e, portanto, do projetável, ou o ato de “conceber o que ainda não está lá”. Tal processo inclui todos da sociedade e de suas comunidades, que se tornam capazes de estabelecer, ativar e compartilhar diálogos para a criação de seus próprios futuros: eles se tornam artistas desejosos de seus próprios futuros.

+MIND, a nanotech pill

+MIND, a nanotech pill

Near Future Design

O futuro indefinido, lapso de tempo depois do presente. O futuro não existe, alguns podem dizer, exceto como uma projeção de possibilidades da tensão do presenteFuturos infinitos existem, e atuamos neles de acordo com as decisões que tomamos e as direções que abraçamos.

Futurologia, o estudo do futuro, é uma ciência, arte e prática que postula sobre futuros possíveis. Isso destaca, neste processo, a importância de sua caracterização como múltipla e plural: várias possibilidades e alternativas futuras, não solitárias, monolíticas. Deste modo, expõe os limites de vidência, de previsão e combinação, probabilidade e cálculos estatísticos, no que diz respeito à possibilidade de se conceber (e atuar) futuros possíveis e preferíveis.

Uma das principais suposições em estudos sobre o futuro é de que ele é plural, não singular. Consiste de futuros alternativos com probabilidades variáveis. O objetivo primário do estudo sobre o futuro é identificar, mapear e descrever alternativas futuras, reunindo dados quantitativos e qualitativos e informação, lidando com a possibilidade, probabilidade e a conveniência da mudança, de acordo com uma perspectiva holística. Aqui, a análise cultural do que é “preferido” no futuro entre as diferentes possibilidades é parte fundamental do processo.

O futuro da Saúde?

O futuro da Saúde?

O futuro é o resultado de uma conversa

Na era da informação, das redes digitais, da hiperconexão e do conhecimento, a compreensão do futuro muda a direção. Essa é a era do rompimento contínuo, no qual um constante estado de inovação radical tem uma incrível energia de impacto sobre todas as nossas sociedades. No qual game-changers, em negócios, governança de cidades, energia e políticas, são os principais atores e beneficiários dos processos de inovação.
Isso está aqui, nesse espaço de mudança e mutação transitório e nômade, que podemos imaginar para começar nossas conversas sobre as maneiras de cocriar nosso futuro, sobre maneiras performativas. Para fazer isso, temos que começar de um nível de compreensão que vai muito além da compreensão do estado da arte e das tecnologias. Temos que começar do entendimento dos imaginários, dos rituais e tensões da era contemporânea, incluindo os conflitos e as coisas que provocam admiração e senso de surrealismo. Temos que entender o “senso do possível” tanto quanto o “senso do desejável”.

unboxing NatNet, a nanotech 3D printer

unboxing NatNet, a nanotech 3D printer

Podemos fundir a compreensão do que podemos imaginar como sendo implementável com a compreensão do que desejamos implementar: além da utopia, ultrapassada a dualística dimensão de verdadeiro/falso, no estado de suspensão flutuante da performance por meio da qual vamos ampliar um pouco mais ambas as sensibilidades (tecnologia e desejo), para decretar nosso próprio futuro.

Nesse sentido (de conversação, comunicacional, polifônica, emergente, coautoral) a definição do Futuro muda: isso se torna designprojeçãoperformanceA performance do conhecimento, da autodeterminação ética e cívica, atuada por meio da auto-observação e auto-representação, em um todo que é ecossistêmico e líquido, no qual dissonância e ruído se tornam formas de vida, essências por meio das quais é possível aprender a agradecer pela presença simultânea dos múltiplos pontos de vista que são expressos.  Aqui, neste espaço cujos limites são fractais e oscilatórios, diferenças sobem para se tornar valores de importância primária: que é a fonte da própria vida. (Bio)diversidade como um espaço para oportunidade e possibilidade.

Na criação desse espaço para possibilidade, o papel do “impossível” é obviamente redefinido, e se torna uma ferramenta para a conversação polifônica apenas como “possível”, com a mesma dignidade.

Ambas as ferramentas nos ajudam a ampliar nossa percepção do “possível” – ao longo de eixos que são cartesianos, diagonais, não-euclidianos, caóticos e indeterminísticos ao mesmo tempo – para desencadear a performance do Futuro.

Efesto, the near future of pleasure

Efesto, the near future of pleasure

Isso é o que temos definido como Near Future Design.

Uma dimensão performativa na qual a observação do estado das artes e tecnologias encontra a observação antropológica e etnográfica.

Na qual de diáspora e onipresença da nossa realidade hiperconectada se transforma em instrumentos excepcionais para a compreensão dos múltiplos pontos de vista apresentados no ecossistema humano de relações e interações (e, claro, de comunicação).

Na qual  múltiplas fontes de conhecimento combinam transversalmente disciplinas e modalidades, disseminadas pelas cidades e espaços de comunicação e informação.

Na qual podemos observar a percepção do “possível” e do “desejável” para entender: tensões, conflitos, harmonias, dissonâncias; rituais como eles são; tendências quando elas são apenas sugestões; identidades quando elas são apenas átomos na busca de sua ligação química; des-identidades, antes que elas se separem, para depois se remontarem múltiplas vezes na Alteridade.

Nesse cenário, o design cumpre um papel fundamental. Negócios, indústria, políticos e sociedade estão aprendendo rapidamente como entender este valor. Isso é o design transformado, e um design da transformação. Em meio ao design de produto, design da comunicação, design estratégico e design antropológico. Intertecido com Geografia e Etnografia Humana.

Isso é Near Future Design, e ele é promulgado por meio das práticas do Design Ficcional.

ATUM is coming: the near future of wearable emotions

ATUM is coming: the near future of wearable emotions

Processo

Formalizamos um processo para a execução do Near Future Design:

  • Defina áreas de interesse em tópicos
    • Durante cada ciclo/projeto definimos os tópicos das áreas de interesse que formam nosso domínio de pesquisa;
    • Estes podem ser contíguos, complementares ou contextuais, provendo continuidade, mas também a possibilidade de expandir a observação para aspectos indiretos de transformação para as sociedades humanas provocadas por nosso objeto de pesquisa;
    • A saída desse estágio é uma representação visual do domínio de pesquisa, juntamente com sua documentação estendida.
  • O mapa do mundo no futuro
    • O mapa visa coletar informação sobre o que é percebido como “possível”, “impossível”, “desejável”, “factível”, “preferido” e “vislumbrado”;
    • Ele contém duas áreas principais, relacionadas ao estado das artes e tecnologias, e à análise  antropológica, etnográfica, psicológica e emocional de culturas relevantes, comunidades, grupos, organizações e indivíduos;
    • A parte do mapa que leva em conta o estado das artes e tecnologias lida principalmente com questões técnicas relacionadas com o avanço das tecnologias, os dados e informações sobre contextos relevantes, a descrição de tendências;
    • A parte do mapa que leva em conta a análise antropológica, etnográfica, psicológica e emocional lida com a coleta de provas sobre as maneiras pelas quais as sociedades humanas se formam nos contextos referenciados, descrevendo abordagens, estratégias, táticas, rituais, relacionamentos, redes, expressões emocionais, gestos, economias, dinâmicas, ecossistemas e seus equilíbrios, tanto em seu estado atual, quanto na sua transformação.
    • Em todas as seções, a informação é fornecida como pano de fundo, as configurações sócio-técnicas, os possíveis atores e partes interessadas, proporcionam um contexto expandido para histórias que estão prestes a ser contadas;
    • A saída deste estado é um mapa visual, um relatório e uma extensiva base de conhecimento, a qual pode assumir diferentes formas, dependendo do contexto e das circunstâncias;
  • A Configuração da História
    • O começo da história;
    • Descreve, em termos gerais, cenários futuros, ao mesmo tempo limitando o escopo, excluindo certas áreas que não serão examinadas e abrindo para domínios que serão parte da pesquisa;
    • Seu output é sob a forma de uma narrativa, expressa em termos visuais e textuais;
  • O(s) Conceito(s)
    • Cada futuro possível examinado é descrito conceitualmente (geralmente abstrato ou com esboços de diagramas) bem como com um projeto de narrativa que destaca suas principais modalidades e que estabelece o desenvolvimento do storytelling atual;
  • As funções da história
    • Cada história é desenhada de acordo com o esquema formalizado (usualmente os três-atos da instalação, Conflito e Resolução), para proporcionar narrativas sólidas, consistentes;
    • Para cada história, as funções da história básica são criadas, destacando o núcleo de cada narrativa, que descreve em detalhes crescentes as “histórias de um futuro escolhido”;
    • Histórias múltiplas podem ser criadas para cada conceito, mesmo seguindo-se diferentes caminhos entre as possibilidades identificadas;
    • A saída desse estágio consiste de uma lista dos ”eventos núcleo” para cada história, assim como representações diagramáticas de suas relações e as relações de funcionamento entre as diferentes (e alternativas) linhas de histórias que estão sendo desenvolvidas;
  • Os Mapas de Evento
    • Cada história é expandida em um Mapa de Evento;
    • Cada Mapa de Evento é um diagrama no qual as principais partes da história são agrupadas em círculos, começando das funções de núcleo (as principais fases de cada história) bem como alguns eventos adicionais que podem ser considerados para equilibrar a lógica da história;
    • Eventos satélite, caminhos alternativos e itens baseados no tempo são adicionados ao Mapa para criar contexto, e para melhorar as características de construção de mundo desta fase;
    • Dessa forma, cada história descrita constitui um mundo, fornecendo um completo sentido de contexto e de credibilidade;
    • A saída desse estágio é constituída de Mapas de Eventos e diagramas e sua respectiva documentação/configuração;
  • Os Mapas das Histórias
    • Os Mapas de Eventos são transformados em esboços;
    • A representação na forma de esboços aumenta a granularidade e os torna mais concretos;
    • Essa fase possibilita algumas iterações com as anteriores, assim como dá concreta e imediata evidência sobre o equilíbrio das histórias e a necessidade de refatorá-las em uma das fases anteriores;
  • O output desse estágio é constituído de esboços e sua documentação.
  • O Design Ficcional
    • Simulacra
      • O objetivo dessa fase é criar um simulacrum, um “acreditável”, possivelmente funcional, “protótipo do futuro próximo” (um pré-tótipo), por meio do design de produto e design de comunicação, trabalhando com diferentes mídias;
      • O objetivo é “a construção de um mundo”, criando não só “o objeto” (ou serviço, ou ideia, ou…), mas também um mundo em torno disso, para sua credibilidade;
      • Respondemos a questões como “Como seria o mundo se existisse o objeto X? Como ele seria? Como as pessoas se comportariam?”, e tentamos implementar, tanto quanto pudemos, respostas usando diferentes mídias;
      • O resultado final deveria criar um estado de “descrença suspensa” onde é impossível (ou pelo menos difícil) decidir se o “objeto” é real ou falso, uma vez que existem várias pistas e evidências que apontam para a sua existência;
      • O simulacrum (e seu estado de descrença suspensa) é a ferramenta que nós usamos para “deslocar a percepção do possível”, e começar o diálogo global em torno da possibilidade de transformação das sociedades humanas, portanto desencadeando a dimensão performativa do Near Future Design;
    • Narrativas Transmidiáticas
      • O output da fase de Design Ficcional, portanto, constitui-se de um conjunto de Narrativas Transmidiáticas, implementando um simulacrum para a história;
      • Narrativa Transmidiática é uma técnica de narrativa multimodal capaz de mover e combinar os efeitos multimídia, de objetos físicos, para websites, intervenções urbanas, e muito mais.

Nota: esse processo é derivado de um trabalho de Storienteering, do qual capturamos e modificamos a abordagem para a construção de uma história, e sobre o qual integramos nossa própria versão de Design Ficcional, Narrativas Transmidiáticas, o importante papel da Simulacra e, nas fases adicionais, a abordagem antropológica/etnográfica na definição de um Mapa do Mundo no Futuro, que se torna um Mapa do Mundo Near Future Design.

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