Bate-papo com Steve Blank sobre Henry Ford e Steve Jobs, por Bruno Rondani

Nos últimos anos Steve Blank ganhou grande notoriedade no mundo do empreendedorismo, com sua metodologia de Customer Development e com o movimento da lean startup. Seu manifesto “Ouça os clientes” vem a contradizer a conhecida máxima de Henry Ford “Se eu perguntasse a meus compradores o que eles queriam, teriam dito que era um cavalo mais rápido” renovada depois por Steve Jobs com a frase “As pessoas não sabem o que querem, até mostrarmos a elas”.

Perguntado sobre o que ele achava destas duas máximas, sua resposta foi: “se Henry Ford tivesse, de fato, feito essa pergunta, e provavelmente ele fez, as pessoas teriam respondido que precisavam de transporte rápido, não de cavalos mais velozes. E se Jobs teve bons insights sobre o que as pessoas queriam, é porque soube adaptar e reformular os produtos de sua empresa após diversas tentativas fracassadas”.

Para Steve Blank, há de se diferenciar muito claramente o tipo de mercado que sua inovação ou startup pretende atingir. Em mercados existentes, sabemos que existem consumidores, que existem competidores e até podemos prever com certa acuracidade qual é o crescimento esperado para os próximos cinco anos. Em novos mercados, sabemos que não há consumidores e muito menos competidores. Em mercados existentes, é possível eventualmente inovar sem consultar uma centena de consumidores, pois já conhecemos alguns padrões de consumo. Entretanto, em novos mercados, o comportamento do consumidor ainda é uma incógnita e os produtos inovadores só se sustentarão após a sua validação. Acertar de primeira, sem nenhuma validação prévia não é mais do que um golpe de sorte.

O que se observa, com muita frequência, é que planos de negócio não resistem ao primeiro contato com o consumidor. O empreendedor ou inovador, quando tem uma ideia e a testa numa primeira conversa com o potencial consumidor, ele pensa: que tolo, não entendeu a minha ideia. Após falar com dez consumidores, ele já começa a reformular alguns aspectos. Depois de falar com cem consumidores, a ideia reconstruída já é muito diferente da original.

No caso do modelo T da Ford, lançado com grande sucesso em 1908, diversas versões anteriores já vinham sendo comercializadas e testadas no mercado desde 1903. Foram 19 versões entre protótipos e produtos que foram, de fato, a mercado, entre o modelo A e o modelo T. Após o sucesso do modelo T, a Ford ainda lançou os modelos S e N. Ao chegar no modelo U, em 1927, Henry Ford decidiu voltar à letra A, pois o produto já era muito diferente dos demais.

ed029_specialTeria sido, portanto, o visionarismo de Henry Ford, único homem a entender que não queríamos cavalos mais rápidos, ou teriam sido os consumidores que realmente validaram e moldaram o que entendemos por mercado de automóveis hoje?

O que Henry Ford realmente pensava sobre sua invenção é muito melhor expressado numa outra citação muito mais coerente com o que entendemos hoje sobre empreendedorismo e inovação aberta: “Eu não inventei nada novo. Eu simplesmente reuni em um carro as descobertas de outros homens, onde estão milhões de horas de trabalho. Se eu tivesse tentado cinco ou dez anos antes, eu teria falhado. O progresso e o êxito acontecem quando todos os fatores responsáveis por eles estão prontos, e então é inevitável”.

Quanto a Steve Jobs, fiquemos com a importância que ele dava ao consumidor, melhor expressada nesta outra citação: nosso DNA é de uma empresa de consumo – somos feitos para um cliente que sabe diferenciar o que é bom do que é ruim. É nele que estamos pensando. Nosso trabalho é ser responsável pela experiência completa do usuário. Se não se cumpre a expectativa do cliente, é toda e simplesmente nossa culpa”.

Naturalmente, Ford e Jobs sabiam muito mais sobre inovação, do que expressa qualquer frase de efeito que tenham dito.

Share Button

Uma ideia sobre “Bate-papo com Steve Blank sobre Henry Ford e Steve Jobs, por Bruno Rondani

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>